O Caldeirão do Alquimista

"Numa alusão à obra divina da criação e ao projeto de redenção nela contido, o processo social foi designado por "Grande Obra". Nesse processo, uma matéria inicial, misteriosa e caótica, chamada matéria prima, em que os opostos se encontram ainda inconciliáveis num conflito violento, deve ser transformada progressivamente num estado de libertação de harmonia perfeita, a "Pedra Filosofal" redentora ou o lapis philosophorum: «Primeiro, combinamos, em seguida decompomos, dissolvemos o decomposto, depuramos o dividido, juntamos o purificado e solidificamo-lo. Deste modo, o homem e a mulher transformam-se num só."[1] Alquimia e Misticismo, Alexander Roob.

Tenho o hábito de escrever diários desde os 12 anos. Escrevia especialmente nos momentos difíceis percebendo como era mais urgente escrever nesses momentos. E a compreensão se desenvolvia no momento da escrita ou simplesmente muitos anos depois.

Então, esses dias, resolvi procurar por pistas em meu diário de 3 anos atrás, e encontrei dois pedaços de folha colados no meio do livro, como se tivessem sido escritos com pressa. Escrevia à Deus, escrevia como estava farta de ter uma vida perfeita, de ter um marido perfeito que me deu uma casa perfeita e tudo era perfeito a ponto de me incomodar. Quanto eu desejava explodir as paredes e fugir com ciganos desconhecidos, quanto eu queria ser livre e de não ter ideia sequer do dia de amanhã, encontrar outras almas livres e comer com as minhas mãos. Mas o medo de perder o homem que eu amava e depois de toda a segurança que podíamos dar ao meu filho e ser uma ‘boa’ mãe que não anda pelos caminhos tão incertos, me fizeram ficar. Uma parte de mim também se sentia ingrata e culpada por isso, mas ao mesmo tempo algo intocado em mim reconhecia uma inegável essência selvagem. Eu não estava cansada do homem que amava inquestionavelmente ou do meu filho, mas sim do papel de esposa e até do papel de mãe. Então, de alguma forma, isso estava claro para mim, mas eu não tive a sabedoria de combinar o chamado da minha alma, que tinha a enorme inconveniência de ser indescritível e os papeis do do ego. (Vou chamar de ego todos os papéis dos personagens que assumimos, como esposa, mãe, filha, artista etc. E chamarei de “alma” aquela consciência que surge da verdadeira essência, independente dos papéis).

Em julho de 2019 convenci meu esposo a me seguir pelos passos de São Francisco e visitar Assisi na Itália. Ambos estávamos lendo sua biografia maravilhosamente escrita por Nikos Kazantzakis, durante esta peregrinação. Um parágrafo do livro comoveu-me profundamente tanto quanto me apavorou ​​ao ler Francisco conversando com um sábio errante perguntando qual era o caminho para a Libertação.

O sábio batendo seu bastão no chão disse: “não há caminho!”,

Francisco, apavorado, respondeu: "O que há então?"

“Existe apenas o abismo. Pule!”

"Abismo? É esse o caminho? Eu não consigo! ”

"Então se case, trabalhe e esqueça seus problemas." E seu braço esquelético fez um gesto para que eles se retirassem.


Você ja se estremeceu alguma vez com aquele sentimento de que acaba de testemunhar algo e não tem mais volta, não tem como não saber ou ignorar? Eu não podia ignorar a voz da minha alma gritando e ansiando por correr veloz contra o abismo de braços abertos. Queria pular de braços abertos! Que absurda!

Chorei nessa viagem com um certo desespero, com uma certa clarividência de que iria perder tudo o que mais amava, mas também não tinha a certeza se era isso… ou se estava simplesmente ficando louca.

A luta vã de evitar a tempestade que se anunciava dentro de mim me angustiava profundamente e por isso me rendi finalmente ao primeiro passo em direção à algo que eu achava que seria o pior e que outra parte em mim achava que era o melhor que eu poderia fazer, especialmente e especificamente para me livrar daquela voz que gritava o tempo todo para escolher o caminho mais seguro, mais “certo”, mas aí eu entreguei ao abismo a primeira parte: meus longos e queridos cabelos loiros que cobriam todas as minhas costas. Pedi ao meu companheiro amado para raspa-lo. Totalmente reduzido à zero. Ele cortou. Ambos sorrimos e choramos. Aquele momento foi um misto de alegria, de medo também, mas com a excitação de um ato rebelde, de amor cúmplice e liberdade.


Depois desse primeiro passo, os próximos foram corridos.


Apenas um mês depois de volta ao Brasil, meu companheiro conheceu outra mulher, uma atriz, dona de vários personagens e logo se envolveram. E ai, ele partiu. Não olhou para traz. Seguiu um outro chamado e eu fiquei.

No final do ano, senti ter perdido tudo o que amava com todo aquele meu apego que me cegava. Não apenas meu cabelo, meus looks, meu homem, minha casa, mas também todos os meus conceitos profundos e convincentes sobre o amor, o sagrado, a cumplicidade, a maternidade, o casamento convencional, promessas ... tudo isso voltou ao ponto zero. Vazio. Morto e imóvel. Como fuligem escura no fundo do caldeirão do alquimista.

Escolhemos caminhos diferentes e não fomos sábios o suficiente para fazê-lo sem dor... mas agora acho que o sofrimento é o que os alquimistas chamam do “mercúrio” e reunindo todos esses ingredientes inferiores, o transformam em ouro. Enquanto está fervendo e as partículas se despedaçando no caldeirão do alquimista, sente-se a morte; é a morte e é terrível. O que resta depois de algum tempo ... é esse pedacinho condensado de alguma coisa, totalmente purificado, transformado para sobrar apenas a essência - essa semente de uma nova vida com um tipo diferente de brilho, de magnetismo, de história.

Então, tinha que ser assim - porque é o desejo da alma passar pelo processo alquímico através do ego. Talvez o ego seja o próprio caldeirão do alquimista, onde tudo se destila. Essa vida é sobre a realização da alma. O ego é o veículo, é a máscara no palco, é o jogador, o mito, o símbolo da experiência que a alma guia com colérica compaixão. O ego, pobrezinho, faz tudo o que pode para evitar. Mas o ego é mortal e a Alma tem a eternidade, então ela também é mais paciente, mais sábia, mais forte e sabe brincar.


Não é que a Alma tenha um desejo per se ... é como a cachoeira que não tem nenhum desejo de cair do penhasco, ela simplesmente cai. De alguma forma, encarnamos neste corpo limitado, somos a personificação do dualismo - essa é a realidade humana. Ao nos identificarmos com pequenos personagens na vida, resistimos à natureza, pensamos que é demais, é assustador, selvagem, incontrolável, perigoso. Mas sábia é a criação ... porque ao resistir à ela, cria-se energia, movimento e vida. Essa é a dança do universo, expansão e contração, tensão e liberação, caos e ordem - então tudo está em movimento e tão vivo por causa do mecanismo de expansão e resistência!


Assim, a alma e o ego têm essa brincadeira de "gato e rato", se a vermos como uma brincadeira da dualidade como o próprio ato de fazer amor, ou “foda cósmica" como alguns chamam… nos renderíamos para finalmente passar pelo processo da alquimia e poder viver plenamente a dança, porque podemos, porque é o nosso verdadeiro potencial. Para meu professor na Índia, meus desenhos nunca foram bons o suficiente e ele insistia em dizer "se você pode expressar 100% do seu potencial, por que eu aprovaria 50%?"


Eu posso ouvir meu Coração Selvagem dizendo o mesmo para o personagem da mulher abandonada com quem me identificar às vezes - e escuto meu Coração Selvagem dizendo, “pare de ser tão pequena! Você está perdendo tempo, não é nada sobre "ela" - há algo além do personagem, além de si mesma que pode ser experimentado: do outro lado do "pequeno eu" está na verdade a liberdade! " E a liberdade não é algo que conquistamos ou adicionamos em nossas vidas ... a liberdade está lá quando renunciamos à importância dos papeis dos personagens que assumimos, quando desistimos de segurá-los com tanta força. A energia causada pela dor (e quanta energia que ha!) poderíamos em algum momento apenas revertê-la e direcioná-la para a prática, para a Arte, para o Serviço, a Oferenda. E que descoberta, que bênção seria! Isso é chamado de alquimia da Alma, transformando a fuligem em ouro.


Mas deixe-me dizer, a alma é profundamente sábia e não se preocupa em manter as coisas como estão, ela sabe que a experiência do amor pode ir muito além de qualquer pequeno apego e delírios do ego, especialmente o apego a todos os papéis que damos toda a nossa energia vital - na verdade, exatamente naquele momento, percebi que

o chamado mais íntimo da alma é o medo mais profundo do ego. Esta é a verdadeira dualidade que todos vivemos.


Arte da aluna Marilia Nigaru, Florianopolis, 2021


À medida que entramos no isolamento da pandemia, ouço de muitas pessoas a experiência da “casa caindo” me fazendo pensar e escrever aqui sobre isso.

Na semana passada, uma aluna minha enviou seu relatório sobre uma instalação de arte que propus que ela fizesse, tudo relacionado com suas próprias virtudes e sombras. Ela fez de forma muito significativa e espontânea que ambas ficamos surpresas e comovidas. Ela relatou o processo externo da montagem e em seguida o processo secreto da peça de arte. Em seu relato secreto ela voltou ao seu passado, pois a peça tinha a ver com o tempo e a morte, e ela se lembrou de quando era uma adolescente muito inquieta e imatura, e desejava mudar aquela “gaiola” de consciência onde não queria habitar mais, ela queria crescer. Então ela desenhou em todos os cantos de sua casa uma espiral simbólica como um lembrete para que ela lembrasse que seu propósito era despertar a consciência. Exatamente uma semana depois ela sofreu um acidente de carro onde suas amigas não saíram vivas e deixando ela com inúmeras cicatrizes nas pernas e nas costas. Eu nem preciso dizer o quanto isso mudou a consciência dela.


Agora me pergunto… o quanto estamos conectados à voz da alma? Difícil dar-lhe um nome… gosto também de chamá-la de “coração selvagem” e percebi que meu trabalho com a arte e os cavalos e o intuitivo, estava sempre procurando refinar aquela voz, aquele ouro. Estou apenas tendo um vislumbre agora que escrevo - porque escrever também faz isso. Eu me pergunto quanto sofrimento realmente tem a ver mais com a experiência do personagem e nada mais. A alma é amoral. É compassiva e nos guia, mas não é corrompida por nossas suplicas e apelos. Ele golpeia a espada, como Buda Manjushri. Tão poderoso e preciso. Esvaziando-nos de conteúdos, criando espaço depois daquelas bombas mortíferas dentro de nós explodirem, ingressando nos cemitérios que algumas vezes na vida nos encontramos. Lá, apenas naquele caldeirão alquímico de morte e ouro que nunca iremos realmente entender no nível comum, é onde finalmente recebemos os ensinamentos das dakinis, só então seremos capazes de voar porque nada nos prende. Nesses momentos de alguma forma até ficamos menos densas e tudo se torna mais possível e flexível, pois aquela que fazia o personagem da amada e o personagem da “mãe domesticada” se foi ou simplesmente se tornou mais leve e translúcido... a ironia é que a vida continua a fluir em sua aparência normal com aqueles personagens complexos mas tão efêmeros, porem com a possibilidade de uma vasta abertura onde o coração selvagem é fresco, apaixonado pelo jogo das aparências mas sem apegos e é capaz então de brilhar e guiar sem medo - este é o coração do Buda Desperto. Este é Aquele que também guia muitos de nós, mesmo 2600 anos depois que seu “personagem” morreu - o que é eterno ainda brilha para o infinito.

Talvez eu esteja totalmente errada, talvez não haja alma e nem ego - talvez todos nós tenhamos uma resposta biológica da vida. Mas então, por acreditar em tudo o que descrevi, me sinto capaz de realmente ser um criador mais consciente da minha realidade, especialmente depois de ferver e destilar de novo e de novo no caldeirão do alquimista e de uma superfície coberta pela fuligem do sofrimento, uma pepita de o ouro racha e a pedra filosófica é revelada elevando a Alma à um novo estágio de consciência - o Magnum Opus, a Alma imortal.


Tiffani Gyatso

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