Cavalgando as emoções

Cavalgando as emoções

O que os Cavalos nos ensinam sobre

nós mesmos e a pintura

Eu sempre amei cavalos, na verdade, quando criança, eu era tão alucinada por cavalos, que desenhava eles obsessivamente... de tal maneira que aprendi a desenhar assim. Anos mais tarde depois de ficar muitos anos no estudo da arte tradicional tibetana, creio ter evitado a figura do cavalo, sentindo como se fosse uma obsessão infantil (seja lá o que psicólogos diriam sobre isso). Mas foi em tempos de crise que o cavalo retornou na minha pintura a galope para resgatar meu ser quando que caia em um poço profundo.

Mas seja algo que continuou a se desenvolver, ou seja um novo significado que dei, deixei ele retornar na hora que eu mais precisava do seu lombo em um salto para fora do poço. A velha historia acontecia comigo... passando por um divorcio com filho pequeno, acompanhado de um novo amor avassalador... culpa, solidão, raiva, tristeza, pânico e confusão.

Quando olhei para dentro de mim mesma vi um cavalo louco, fora de controle, eu dizia ‘me obedece’ mas como uma criatura embestiada, minhas emoções me mordiam, chutavam e consumiam. Eu perdia muita energia tentando doma-lo à força e ele não gostava disso, enquanto eu reclamava ele não me respeitava. Fiz os dois quadros “Taming the Horse” (“domando o cavalo”)

Um ano depois, simplesmente exausta de tentar 'domar' minhas próprias emoções de pânico, dor e dúvidas, eu parei de lutar. Não foi desistir, foi só um reconhecimento que a força bruta do cavalo é muito mais forte que a minha. Eu sentei e olhei... fiquei olhando ele pular, chorar e devagar, quase sem perceber, o cavalo com fome e sede, sem medo da moça que só ali sentava já vazia de qualquer intensão, se aproximou e comeu de sua mão. Esse é o quadro seguinte, que se chama “No Struggle” ("Sem Luta"). Entre esses dois muitos quadros foram feitos, mas esses marcaram o momento que só então me dei conta que o cavalo eram as minhas emoções e que de forma intuitiva a vontade de pintar-los daquele jeito, era só o reflexo autêntico do meu interior. A aparição dos cavalos nas minhas pinturas, me diziam qual era meu real estado interior – pois na confusão, muitas vezes não sabemos mais o que sentimos e ficamos só correndo e se protegendo, usando inúmeras máscaras que nos ferem.

Estou criando uma série baseado nas emoções que surgem desde então, achado um equilíbrio interno, sinto poder vagar nas emoções internas como um laboratório curioso e sem ser atropelado pelas combinações químicas desse espaço. Tudo existe em mim: o amor, o medo, o ciúmes, a raiva, a liberdade, os sonhos, as frustrações, a alegria... mas tento não ir de carona simplesmente. Se eu for cavalgar em cada um, que eu dê "nome aos cavalos" e criar um tipo de intimidade mais profunda para que então podemos nos divertir no fim e criar arte!

Nunca pensei em ensinar dessa forma que pinto usando a figura do cavalo, pois é um 'projeto' que nasci fazendo... mas esse ano descobri que muita gente tem grande fascínio por esse animal e que também gostariam de aprender a cavalgar suas próprias emoções e no fim fazer arte! O cavalo é um animal de força e liberdade, e meu Zeus, quem já viu "Corcel Negro" e não chorou por causa da beleza estonteante de não caber no peito? Aquelas dunas da Arábia com o contraste dos músculos do negro selvagem e um menino sobre seu pelo suado? Que imagem mais impactante não seria essa de liberdade e força?


O PENSAMENTO

Vivemos em ‘samsara’ – o ‘mundão’ feito de coisas desejáveis que são impermanentes e sofremos com tudo que queremos e perdemos e também as que não queremos. Nossas experiências ficam bastante limitadas no o que ‘quero’ ou no que ‘não-quero’. Ao não compreender a realidade das ‘coisas’ e se relacionando com elas como se fossem eternas e independente de condições, nos infligimos grande sofrimento e uma mistura de emoções causada pela nossa visão distorcida. Com a intensidade das emoções, nos identificamos com o que estamos sentindo e acreditamos ser aquilo, criando densas prisões de conceitos irreais. Acreditamos ser ‘tristeza’ por exemplo, mas na verdade estamos tristes porque não compreendemos a realidade e a partir de uma visão ignorante, damos as condições internas para ela surgir, como se usássemos um óculos de grau intenso e vemos tudo distorcido acreditando que as coisas é que estão tortas. No fundo somos como vasos vazios, funcionando como containers carregando registros genéticos e conceitos sociais e culturais. Tudo que ‘sou’ me foi dado, começando pelo meu nome, meu papel na sociedade, meu idioma, minha escola, meu banco. O que sou ‘eu’ antes de tudo que me foi dado?

Então vivemos historias inventadas de ilusões que acreditamos ser reais, nos ocupando absolutamente em resolver a vida e os nós que ela deu, ou tampando os buracos do castelo de areia pensando que alguma hora para em pé! Mesmo sabendo que a única certeza que temos, é que uma hora a onda vai levar tudo.

Dessa forma vivemos acreditando ser isso ou aquilo, mas na verdade estamos na maior parte das vezes, respondendo às condições externas e tendências transferida pelos nossos ancestrais. Ao sentir tristeza, colocamos uma cara feliz para sermos aceitos e amados, ao sentir medo, não pedimos ajuda e se torna em orgulho e assim segue, de tal modo que não sabemos quem somos e o que sentimos, criando camadas em cima de camadas, como uma cebola.

Porem no centro dessa ‘cebola’ ha um espaço vazio, onde também esta a parte mais fresca, germinando novas partes suculenta e aromática da cebola. Ha vários meios de acessar o cerne dela e usando essa analogia da cebola, somos mais secos e grossos por fora e por dentro mais macios. A casca tem sua função de proteger a essência de dentro, como precisamos de um ego para lidar com as coisas pratica da sobrevivência. A questão é não viver achando que é só casca, a questão é reconhecer todas suas camadas, todas suas potencialidades e naturezas, ganhando conhecimento, sabedoria e encantamento, aceitando as leis da impermanência, considerando o presente, sendo por inteiro agora, pois não ha outro momento a não ser agora. Ha vários meios de cruzar a periferia da casca e acessar o centro, um deles é estar ao lado de um cavalo, um outro é pintar e um outro é estar ao lado de um cavalo e pintar.

A PROPOSTA DO CAVALO E DA PINTURA

No momento da pintura, a proposta é criar a partir de um espaço interno e central, onde a intuição vive, onde a mente é convidada a não pré-definir o projeto inteiro.

A relação com nossa experiência com o cavalo é sentir como o cavalo ignora as máscaras – a nossa armadura - ele não da a mínima, não faz média e não tenta te agradar - ele vai relacionar sempre com o seu ‘cavalo interno’ também, o seu cerne, sua essência, porque é isso que ele enxerga.

O cavalo selvagem vive na natureza sempre alerta à predadores, ele tem a sensibilidade de seus ancestrais em perceber o suspiro de uma onça no bater de uma folha, ele percebe nos olhos do outro animal se ele vem para atacar ou acompanhar apenas. Por isso é de sua natureza perceber as reais intenções de quem se aproxima. Quantas vezes temos pessoas que nos sorriem e agradam, mas nos magoam pelas costas? É porque nossa visão não esta enxergando além das aparências. Fomos treinados pela mídia especialmente, à acreditar na propaganda. O cavalo nos ensina a enxergar a energia da motivação daquilo que se aproxima. E basicamente para fazer arte, queremos trabalhar a partir dessa visão e não fazer arte por arte ou porque é bonito e fará parte da sua propaganda pessoal, nos vendendo de certa forma. Sim, venda suas obras, mas não se venda, por isso não use vendas!

Como muitas vezes nos auto-sabotamos, nem nós mesmos sabemos mais o que somos, qual nossa essência, a razão de angustias, inquietações e carências. E sem essa compreensão saímos correndo atrás do açúcar, que nos vicia e não nos tira as vendas! O samsara é o mundo que ganha ‘seguidores’ que seguem suas regras. Por isso ha muita confusão, acreditamos ser a máscara que construímos e não conhecemos ou não sabemos como viver e criar a partir de um centro verdadeiro, onde o mel transborda sutil, se percebe em silêncio e se toma com gratidão – nada mais... muito simples, singelo.

Por isso, o cavalo nos dá uma dica qual é o sabor da nossa essência que muitas vezes perdemos de vista. Com essa dica, nos conectamos com a essência e pintamos a partir dela e não a partir da mente. Vou chamar a mente da periferia do nosso ser (camadas) e a essência de centro (intuição). Quando temos uma visão e queremos que a obra saia do jeito que queremos, onde visualizamos de ante mão, planejamos, controlamos, tencionamos e criamos expectativas - esse é um indicador da mente periférica e não central, ela serve para uma vida pratica, uma missão estratégica ou para a guerra.

O central se expressa de forma intuitiva, aberta, receptiva, curiosa, inocente – ela serve para experenciarmos aspectos novos de nós mesmos, para isso não podemos planejar muito... ou só o suficiente para deixar espaço para que ‘outra coisa’ se manifeste, a partir de um espaço ‘vazio’ e potente, cheio de possibilidades.

O espaço interno que me refiro de ‘vazio pulsante’ pode ser assustador, pois de fato é como o céu ou o horizonte ao mar aberto, ainda sem nada manifestado, nenhum elemento para os olhos ou a mente se agarrar. A mente logo inventa algo para se agarrar e não espera que algo surja por si só, por natureza própria. No caminho de um artista peregrino, aquele que esta em busca de sí mesmo, deve se sentir cada vez mais intimo com esse espaço vazio, visitando quantas vezes puder, criando fluidez entre vazio e conteúdo, entre silencio e o som, o manifestado e o ainda não manifestado, com isso ele cria uma pulsação, um ritmo que gera movimento. Caso contrario podemos nos encontrar muitas vezes bloqueados por nós mesmo! Repetindo tantas vezes as coisas que já deram certo, sem dar o espaço de algo surpreendente se manifestar. Seguimos e calcificamos hábitos passando somente à imitar a nós mesmos. O cavalo reconhece energia... reconhece seu interior que muitas vezes você perdeu de vista. E não importa as máscaras que você coloca, ele verá além, ele não mente.

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Tiffani Gyatso

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