TIFFANI GYATSO

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DOMA

Manifesto

Cresci nas montanhas onde tínhamos cavalos e outros animais. Fui apaixonada por eles e montava todos os dias sobre o pelo do seu lombo. Também desenhava-los obsessivamente e foi assim comecei a aprender muito sobre desenho, mas principalmente por causa da minha paixão por esses seres. Mais tarde, pude reconhecer que na verdade eu estava atraída não apenas pelo animal em si, mas principalmente pela energia: forte, rápido, selvagem, gracioso, livre. Sua imagem sempre me trouxe essa sensação. 

Quando deixei de morar no sítio aos 14 anos, parei por muitos anos de desenhar cavalos para mais tarde também poder me dedicar ao que havia decidido estudar: a arte sacra do Tibete, onde fui morar na Índia e aprendi muitas coisas, especialmente sobre energia e simbologia.

Mas foi em uma tempestade em minha vida que durou alguns anos… crises de identidade, crise de maternidade, crise amorosa ... e fui escorregando ao pântano da minha própria miséria, me identificando com o aspecto mais negativo de mim mesma. 

Os sentimentos de raiva, paixão, culpa, ciúme e tristeza estavam correndo soltos dentro do meu corpo - sentia uma eletricidade que não desligava e não me deixava em paz. Com isso senti que meu corpo queria se mover grande, rápido, caótico e confuso, então eu segui o que ele queria e estiquei uma grande tela onde eu podia fazer grandes gestos, liberando essa energia através do movimento. De repente, a forma dos cavalos voltou aos meus quadros, a energia semelhante estava correndo dentro de mim, selvagem, muito selvagem, mas muito zangado e sem direção. Estava usando sua força para chutar e morder, o mesmo que minhas emoções o qual me consumiam e causavam sofrimento. 

As primeiras figuras eram de uma moça domando esse cavalo pela força, implorando para que a criatura obedecesse, tentando controlá-lo por com cabrestos e caretas. E se pensar, é claro que o cavalo não gosta de ser comandado à força! Havia ali uma garota e um cavalo desesperados, como mente e coração em um verdadeiro rodeio! Eu pude entender isso pelo processo em si, eu não segui uma imagem, um significado simbólico, eu pintei o que meu corpo sentia e no processo pude ver essas pinturas como um espelho, ouvindo também o que estava acontecendo e lentamente entendendo melhor minhas emoções. Muitos anos depois fui me dedicar a explorar a linguagem do corpo - que é o primeiro que sente e não mente. A memória dos nossos antepassados não pode ser ignorada, o nariz da minha bisavó fica no centro da minha cara! Nossos traumas estão armazenados em nossos músculos, nossos hábitos definem a maneira como andamos e conversamos e muito pode ser entendido se aprendermos a ouvir o corpo e domar um novo e mais consciente modo de fluir - na vida, nos sentimentos, no corpo e nas relações.

Agora, o que acontece quando seguimos apenas a razão, é que perdemos contato com o coração do cavalo, perdemos contato com a sabedoria de nossas emoções, que é como uma chama sagrada mantendo o coração quente e alegre, é a tocha que ilumina a beleza das coisas na vida. Quando a chama fica fora de controle, pode ser muito perigosa e pode queimar tudo! Então, tentamos amenizar esse fogo, e muitas vezes simplesmente o matamos, tornando-o em cinza, frio, insensível, escuro, triste, mas silencioso eventualmente. 

A mente decide por ordem e procura fazer as "coisas certas” mas… isso não é trazer equilíbrio para o fogo, é apenas lutar e forçar o cavalo a obedecer, a seguir ordens, a entregar a sociedade o que faz o sistema feliz e assim você acabará sendo aceito e talvez amado em retorno. Mas quem se importa, quem é que compreende mesmo sobre sua chama sagrada, se não melhor você mesmo? 

Ir em contato consciente com a chama sagrada, é o que eu chamo hoje de nascimento da sabedoria intuitiva, conceitos e dogmas intelectuais podem satisfazer o ego da pessoa, mas quando você segue o caminho da Sabedoria Intuitiva, é preciso aprender a confiar no caminho do não-saber, dissolvendo sua mente com a natureza do espaço. Quando alguém faz o mundo tão pequeno quanto um pensamento, sua realidade se torna apertada e com menos possibilidades. Quando você segue o caminho da liberdade, é preciso soltar, de modo que o espaço natural ilimitado possa ser acessado e sua força pode se manifestar sem qualquer esforço. A força suprema do cavalo é real quando ele esta solto em seu habitat natural. A flecha tem força quando esticamos e finalmente a soltamos, não podemos carrega-la até o alvo, assim ela perde completamente sua força (e sua graça!) 

Uma chave foi virada quando eu pintei uma outra tela grande depois de um ano quando meu corpo pediu para se mover mais devagar, meus olhos queriam ver cores mais suaves com manchas maiores de tinta fluindo onde uma mulher se sentava com as mãos abertas e olhos fechados e um cavalo selvagem vem comer na mão dela; a diferença é que ela não está forçando-o a fazer nada e o cavalo sai do desejo puro de se envolver. Essa obra foi intitulada de "No Struggle" ou “Sem luta”. Foi essa pintura que me ensinou a parar de lutar contra as ondas em uma tempestade e abrir meus braços confiando na natureza de todas as coisas neste mundo dualista e a natureza impermanente de todas as coisas. Tudo passa. Não há nada que alguém possa fazer, nenhum desespero, nenhum controle e nenhuma oração irá mudar a impermanência de tudo. Basta abrir para o vasto oceano do não-saber, cuidar da própria chama para ouvir as direções do caminho, fazer o que sente ser certo e não o que é dito ser certo, estar simples e presente a cada momento como um ato de generosidade e celebrar o que se apresenta. 

Mas para realizar tudo isso não significa que tudo se tornará previsível. Cavalgar o cavalo selvagem é uma arte, é usar a força arisca das emoções para despertar. A doma acontece quando se ganha maestria sobre a natureza pura do que se apresenta sem querer muda-la, sem medo de render-se à fúria e a doçura do próprio espírito que pode ser e é livre. Viver com a energia do cavalo e o caminho intuitivo da sabedoria, é estar desperto e ser capaz de cavalgar em todos os climas que se apresenta, pois se deseja que o cavalo mantenha sua essência, considere que seu habitat natural é selvagem e sem mudar sua natureza que é sua grande força, você o cavalga, não porque o domina com normas, mas porque você confia que sua natureza vai o levar para onde sua chama indica e ilumina a bússola espiritual.

DOMA, é o nome desta exposição, uma série de telas grandes e menores e muitos desenhos com pinturas e colagens feitas em papel. Isso nunca foi exibido antes, pois está em constante desenvolvimento nos últimos oito anos, embora eu tenha um forte sentimento de que eles só querem correr soltos e livres agora, onde quer que eles galopem!

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