Dakini no ponto de onibus

December 2, 2016

 

Mes passado (novembro 2016)  quando estive em Londres, fazendo o workshop de Geometria Islamica no Prince School.

Voltando ao aeroporto (muito mais carrega na volta, com livros, tinta e o resto... que toda mulher sabe!) peguei um onibus ao metro mais proximo. Pedi ao motorista do estereotipado onibus vermelho de 2 andares a me avisar chegando no ponto. Eis que uma mulher pelos seus 50 anos, negra, vestida elegantemente, me ofereceu de avisar-me. Arrastei minha mala e me postei ao lado dela de pé. 


Ela ficou me olhando, com olhos sérios e investigadores e sem intimidação nenhuma - ela olhava do jeito que bem entendia. Então decidiu me perguntar da onde eu era. Respondi. Pouquissimo 'small talk' e ela logo sussurra algo para mim. Olhos arregalados, profundos, serios. Eu digo que não ouvi e ela pede para que eu me abaixe e me aproxime dela. Ela me sussura ao pé do ouvido:
- Se voce morrer hoje, quem é a primeira pessoa que vai saber?


Ergo minha coluna, e respondo com uma risada nervosa, a tempo de pensar um zilhao de coisas, tipo "ela vai me matar, ela vai lançar um feitiço com esse olhar que desnuda qualquer um, ela ta me tirando... ou ela viu meu futuro, sabia... é hoje que meu avião vai cair, no mar. Pesadelo." Ai, credo! Então lembrei de uma coisa que Dzongzar Rimpoche disse, "dakinis são inconvenientes" ... mudei meu olhar. Finalmente respondi:
- Se eu morrer... não sei quem vai saber primeiro. Deus...? - testei.
Ela pede para que eu me aproxime de novo de seus grandes labios, voz rouca, descrição de Nina Simone, oh my god:
- Se voce morrer hoje, quem vai ficar com seus bens?
Puts, pensei, ela esta vendo meu anel? WTF? Ela quer me matar e pegar? Shiu!
- Eu... eu nao sei. Acho que isso não importa, nao é mesmo? E voce? Falei.
- Eu? - ela continuou sem pausa no seu olhar, me prendendo completamente na sua intensidade - eu tenho medo. Tenho medo que meus filhos estejam só esperando eu morrer para pegar minhas coisas.


Conclui em seu olhar raro, que ela era mulher que sentia demais e que aquele corpo dela carregava uma alma que mal lhe cabia. Algo na postura dela dizia isso. Confiei nesse feeling, e provoquei:
- Mas se voce morrer, não importa quem vai ficar com seus bens, nao é?
- De fato... importa se eles vão me amar em vida ou não. - olhar no olhar, a diva não pisca e continua - mas sabe o que é mais importante? Do you know? Do you really know? É saber quem voce é!
A voz gospel... ritmizada, pesada, grave. Eu entrei em sua dança e perguntei fitando com meus olhos "modo intenso" também:


- E voce? Voce sabe quem voce é?
Pausa. Olhos nos olhos, respira junto e com a lentidão e peso que só uma certeza move, ela confirma com sua voz ja descrita:
- Oooooh yeah, i know.
Here is your stop mam! Have a nice day.
Dakinis on the bus stop. Thank you!

 

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