Arte que foi, arte de hoje e a que vai ser. Você entende?

October 18, 2016

 

Um texto de Fayga Ostrower que fala simplismente tudo sobre o tema da arte de Hoje, a arte de ontem e a arte que esperamos ver. A Arte que sobrevive entre sensacionalismo e consumo... 


Vivemos em tempos contraditórios. Nunca, na história da Humanidade,
existiram tantos museus e exposições, tantas escolas de arte e alunos que se
formam a cada ano, ³futuros artistas², tantas informações. E o resultado?
Mediocridade. É difícil ignorar o baixo nível e a pobreza espiritual (com
poucas honrosas exceções) da maioria das obras produzidas em nossa época.
Por outro lado, é igualmente difícil ignorar o crescente senso de
perplexidade do público diante de tais obras, ainda mais quando acompanhadas
de explicações tão grandiloqüentes quanto vazias. Algo deve estar muito
errado. Sem dúvida, as pessoas sentem no íntimo < embora talvez lhes faltem
palavras para defini-lo < que as questões artísticas envolvem sempre
questões existenciais. É esta problemática de idéias e valores que está
sendo posta em discussão.

O referencial para nossas reflexões só poderá ser a própria linguagem da
arte. Cabe entendê-la como sendo, desde sempre, a linguagem natural da
Humanidade, acessível a todos os homens < e não somente a meia dúzia de
especialistas. Trata-se, em sua essência, de uma linguagem formal (ou seja,
não-verbal, que não faz uso de palavras nem conceitos), constituída por
formas visuais, em si expressivas e comunicativas. É uma linguagem
universal, tanto no sentido de ultrapassar o período histórico e o contexto
cultural em que as obras foram criadas, como também no sentido de seus
conteúdos se referirem, em última instância, à própria condição humana.

Assim, todas as formas de arte incorporam conteúdos existenciais. Estes se
referem à experiência do viver, a visões de mundo, estados de ser, a
desejos, aspirações e sentimentos, e aos valores espirituais da vida. Enfim,
são conteúdos gerais da própria consciência humana. Atravessando séculos,
sociedades e culturas, tais conteúdos continuam válidos e atuais para cada
um de nós. Por isso, a arte tem este estranho poder de nos comover tão
profundamente. Ela fala a nós, sobre nós, sobre o nosso mais íntimo ser.

Sem considerar esta expressividade inerente às formas artísticas, a
discussão se limitaria apenas a aspectos externos, à mera técnica, e nunca
alcançaria o âmago da questão, aquilo que realmente está em jogo na arte: os
valores de vida.

Aqui, porém, já surge um problema de ordem maior. Quais seriam os valores de
vida, os termos de avaliação da sociedade de consumo? A julgar por sua visão
de mundo, parece que o processo de evolução da espécie humana necessitou de
mais de três milhões de anos para poder chegar a realizar, finalmente, sua
meta gloriosa: o perfil do consumidor. Soa absurdo? Exagerado? Pois a
realidade nos mostra que é assim mesmo. O mundo inteiro, material e
espiritual, transformou-se num vasto mercado. Vemos que tudo, absolutamente
tudo, está sendo reduzido ao nível de mercadorias a serem vendidas e
compradas, consumidas o mais rapidamente possível para, logo em seguida,
serem descartadas e novamente substituídas. Também os seres humanos, seu
trabalho, seu potencial criador, suas obras de arte não passam de
mercadorias. Compram-se e vendem-se. E tudo tem o seu preço.

O preço é a medida das coisas. Assim, proclama-se: preço é igual a valor. E
ainda surgem outras equivalências: novidade é igual a criatividade,
originalidade é igual a sensacionalismo.

Cabe entender, porém, que tais equivalências não existem. Preço não é igual
a valor. Qualquer que seja o preço, ele representa apenas um dado
circunstancial e artificial. Unicamente o valor é real, qualidade autêntica
e inerente à própria realização de algo. Quando nos referimos a valores,
falamos de conquistas de nossa consciência, de nosso ser sensível e afetivo.
Solidariedade, compaixão, dignidade, respeito, inteligência, o amor e a
ternura, a ética integrando a estética e, sobretudo, nosso mundo de
imaginação e criatividade < estes são valores. Não têm preço. Não são
compráveis nem vendáveis. Precisam ser conquistados por cada pessoa nos seus
encontros com a vida e seus desafios.

Nem a novidade é igual à criatividade. Nas obras de arte, o novo representa
apenas um aspecto secundário que acompanha o criativo. Toda criação contém
em si algo de novo, de imprevisível e mesmo de inesperado, antes de existir.
Mas a equação não pode ser invertida. Nem todo novo é criativo. E a simples
novidade se esgota no primeiro instante em que for percebida, ao passo que o
criativo sempre se renova e se reestrutura dentro de nós. Cézanne pintou a
montanha Sainte Victoire mais de cento e vinte vezes. Ele não estava à
procura de novidades. Porém, em sua busca incansável, cada quadro
representou um novo começo, um aventurar-se no desconhecido, com novas
criações. Quando vemos estas obras, a excitação de suas descobertas perpassa
nosso olhar e algo novo se reestrutura dentro de nós.

Tampouco se deve confundir originalidade com sensacionalismo. Cada pessoa é
um indivíduo único. Portanto, bastaria ser autêntico e verdadeiro consigo
mesmo, para ser original. Nada mais do que isso. A originalidade vem de
dentro. Já o sensacionalismo...

Os valores mercadológicos em nada correspondem a critérios e valores
artísticos. Na arte, tanto a motivação como o sucesso são de naturezas
totalmente diferentes. Por mais importante que o sucesso de mercado seja
para a vida material das pessoas, ele nem sempre significa o verdadeiro
sucesso e a realização de um artista. Estes serão aferidos pelo
desenvolvimento e crescimento estilístico em suas obras. A profunda crise de
valores por que passa nossa sociedade manifesta-se também, como não poderia
deixar de ser, na arte. Podemos observá-la nos diversos estilos e,
sobretudo, na postura de artistas diante de seu próprio fazer. Ou seja,
diante de si mesmos.

Até a metade do século XX, embora criando em diferentes estilos