Conectando o espírito ao Amor, através da Arte Autêntica

June 27, 2016

Quando falo do espírito, me refiro à sua essência – algo presente, profundo, as vezes encoberta pela máscara que usamos no mundo. O espírito é a consciência plena por traz da máscara – que as vezes acredita ser a máscara, ser essa identidade criada para o mundo. O espírito não tem nome e tem muitas formas. O espírito não ocupa um espaço e esta em todo lugar ao mesmo tempo. O espírito é livre de conceitos de certo-errado, bonito-feio. Puro espírito se expressa na arte de forma autêntica e inteira, quando não passa pela mente crítica, que tem a função de rotular todas as experiências, pensamentos e construções. O espírito expressa sua essência antes de saber o que é e para que serve. A obra em si não precisa ter uma função no mundo. A obra é o resultado de uma peregrinação interna, que o espírito faz ao descartar-se de camadas de personalidades construídas – necessárias no mundo, mas não devemos nos esquecer que elas são todas transitórias e condicionadas ao ambiente externo. A essência do espírito é algo que não se move e ao mesmo tempo é livre em um espaço onde tudo se manifesta.

 

Lembrar do espírito é lembrar de quem você é: e que não tem um nome e nem uma forma especifica – é um perfume. Sentir esse perfume é necessário abrir o frasco.

 

A máscara que também pode ser referido ao ego, é uma fenômeno necessário, pois assim como uma pessoa precisa de uma máscara e snorkel para mergulhar na água, assim de certa forma é a alma que mergulha e transita em samsara. Acreditar ser a máscara, nos tira completamente a possibilidade de retornar à superfície, ao lugar de onde viemos, mas ao mesmo tempo nos mantem vivos. Tomar consciência daquilo que movimenta a energia debaixo dessa máscara transitória, é trazer a identificação menos fixa no ego, sujeito à todas as condições de samsara: nascimento, velhice, doença e morte. O espírito é nossa essência intocada pelo mar de samsara, não envelhece, não adoece, não morre... mas nos move a todo instante.

 

E ha aquela arte feita pelas máscaras para as máscaras e há aquela arte feita pelo espírito para o espírito. E a pergunta é, como conectar mente/ego e espírito, fazendo com que haja espaço com que o espírito se expresse sem as proteções e interpretações do ego, mas usando-o apenas como instrumento fiel da expressão da essência autêntica?

 

Precisamos entender que somos uma sociedade movida pelo medo: medo de não ter as condições básicas de sobrevivência, medo de não ser belo e inteligente, medo de ficar só, medo do desconforto e da insegurança e da violência alheia, medo de não ser amado, medo de ser castigado, medo do desconhecido, medo da perda e da natural impermanencia de todas as coisas, medo do medo, medo das sombras do inconsciente e desejos impulsivos, medo da própria luz e por fim entre tantos outros medos, o medo da morte. Um dos ‘submedos’... é o medo de se expressar, que tem a ver com o medo de não ser belo e aceito (pelos outros e por si mesmo!) e o medo de desvendar a verdade de sua própria existência! Pois de fato, ser aceito e amado é uma instinto primário – que esperamos receber de nossas mães de forma incondicional, em base de que se não recebermos, não vivemos. Precisamos de amor para sobreviver e quando damos amor, recebemos amor. A mesma porta que entra o amor para nós, é a mesma que sai de nós. E quando mantemos a porta aberta, muita coisa pode entrar e sair – até a dor, então é bem difícil deixa-la aberta. Amar não é fácil, quando ao mesmo tempo tentamos nos defender de sermos feridos. Quando o amor se mistura com medo, é impuro e impossível de senti-lo em sua totalidade. Porém, quando nos dedicamos em amar de forma profunda e verdadeira, a dor toma outra perspectiva, função e qualidade – purificando e guiando para uma existência menos autocentrada e se identificando cada vez menos com as camadas transitórias da máscara. Mas essa dor só ensina quando estamos abertos e dispostos a amar profundamente. Amores superficiais e/ou baseados no medo de perder, sempre irão nos ferir. Porque o que esta saindo pela sua porta não é amor – é medo.

Procure estar sempre atento no que sai de você ou através de você, é autentico mesmo com medos? Porque fingir que é amor, quando são medos? É apenas quando olhamos com amorosidade para nossos bloqueios, que teremos a chance de curar o coração em uma expressão pura. Isso é autenticidade na arte. Aceitar quem você é e ser seu primeiro grande amor em cada respiração de uma nova manifestação.  

No momento que você não questiona mais o seu amor, é o momento que você se dissolveu verdadeiramente nele. Enquanto você questiona, é porque não foi suficientemente fundo.

 

A expectativa - a espera imóvel para ser amado é o que nos paralisa diante qualquer expressão de arte autêntica.

 

Tomar um passo ao desconhecido, tomar o risco de não receber nenhum elogio, andar por caminhos obscuros da alma, dirigir a palavra ou o sorriso a um estranho ou mesmo a um indesejado, fazer um movimento rebelde – na tela, na vida – sempre vai ser um risco de não ser aceito e nem amado – mas uma coisa pode levar a outra... talvez, se você se jogar, e não pela metade, mas por inteiro, quem sabe... o caminho de aprender à amar verdadeiramente começa por si mesmo – aceitando sua expressão autêntica, do jeito que é... e experimentar uma profunda satisfação e felicidade do ser em liberdade móvel, ao qual a todo instante desafia nossas máscaras.

 

E quanto ao espírito... ah esse celebra através da arte, suas múltiplas formas de se manifestar além de máscaras limitantes. Fazer arte de modo autêntico e coerente à sua essência, é sair da frente e deixar o universo manifestar. Entregue-se e confie.

 

 

- Tiffani Gyatso

 

 

 

Foto: Chogyam Trungpa em "ação"

 

 

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