Arte que foi, arte de hoje e a que vai ser. Você entende?


Um texto de Fayga Ostrower que fala simplismente tudo sobre o tema da arte de Hoje, a arte de ontem e a arte que esperamos ver. A Arte que sobrevive entre sensacionalismo e consumo... Vivemos em tempos contraditórios. Nunca, na história da Humanidade, existiram tantos museus e exposições, tantas escolas de arte e alunos que se formam a cada ano, ³futuros artistas², tantas informações. E o resultado? Mediocridade. É difícil ignorar o baixo nível e a pobreza espiritual (com poucas honrosas exceções) da maioria das obras produzidas em nossa época. Por outro lado, é igualmente difícil ignorar o crescente senso de perplexidade do público diante de tais obras, ainda mais quando acompanhadas de explicações tão grandiloqüentes quanto vazias. Algo deve estar muito errado. Sem dúvida, as pessoas sentem no íntimo < embora talvez lhes faltem palavras para defini-lo < que as questões artísticas envolvem sempre questões existenciais. É esta problemática de idéias e valores que está sendo posta em discussão. O referencial para nossas reflexões só poderá ser a própria linguagem da arte. Cabe entendê-la como sendo, desde sempre, a linguagem natural da Humanidade, acessível a todos os homens < e não somente a meia dúzia de especialistas. Trata-se, em sua essência, de uma linguagem formal (ou seja, não-verbal, que não faz uso de palavras nem conceitos), constituída por formas visuais, em si expressivas e comunicativas. É uma linguagem universal, tanto no sentido de ultrapassar o período histórico e o contexto cultural em que as obras foram criadas, como também no sentido de seus conteúdos se referirem, em última instância, à própria condição humana. Assim, todas as formas de arte incorporam conteúdos existenciais. Estes se referem à experiência do viver, a visões de mundo, estados de ser, a desejos, aspirações e sentimentos, e aos valores espirituais da vida. Enfim, são conteúdos gerais da própria consciência humana. Atravessando séculos, sociedades e culturas, tais conteúdos continuam válidos e atuais para cada um de nós. Por isso, a arte tem este estranho poder de nos comover tão profundamente. Ela fala a nós, sobre nós, sobre o nosso mais íntimo ser. Sem considerar esta expressividade inerente às formas artísticas, a discussão se limitaria apenas a aspectos externos, à mera técnica, e nunca alcançaria o âmago da questão, aquilo que realmente está em jogo na arte: os valores de vida. Aqui, porém, já surge um problema de ordem maior. Quais seriam os valores de vida, os termos de avaliação da sociedade de consumo? A julgar por sua visão de mundo, parece que o processo de evolução da espécie humana necessitou de mais de três milhões de anos para poder chegar a realizar, finalmente, sua meta gloriosa: o perfil do consumidor. Soa absurdo? Exagerado? Pois a realidade nos mostra que é assim mesmo. O mundo inteiro, material e espiritual, transformou-se num vasto mercado. Vemos que tudo, absolutamente tudo, está sendo reduzido ao nível de mercadorias a serem vendidas e compradas, consumidas o mais rapidamente possível para, logo em seguida, serem descartadas e novamente substituídas. Também os seres humanos, seu trabalho, seu potencial criador, suas obras de arte não passam de mercadorias. Compram-se e vendem-se. E tudo tem o seu preço. O preço é a medida das coisas. Assim, proclama-se: preço é igual a valor. E ainda surgem outras equivalências: novidade é igual a criatividade, originalidade é igual a sensacionalismo. Cabe entender, porém, que tais equivalências não existem. Preço não é igual a valor. Qualquer que seja o preço, ele representa apenas um dado circunstancial e artificial. Unicamente o valor é real, qualidade autêntica e inerente à própria realização de algo. Quando nos referimos a valores, falamos de conquistas de nossa consciência, de nosso ser sensível e afetivo. Solidariedade, compaixão, dignidade, respeito, inteligência, o amor e a ternura, a ética integrando a estética e, sobretudo, nosso mundo de imaginação e criatividade < estes são valores. Não têm preço. Não são compráveis nem vendáveis. Precisam ser conquistados por cada pessoa nos seus encontros com a vida e seus desafios. Nem a novidade é igual à criatividade. Nas obras de arte, o novo representa apenas um aspecto secundário que acompanha o criativo. Toda criação contém em si algo de novo, de imprevisível e mesmo de inesperado, antes de existir. Mas a equação não pode ser invertida. Nem todo novo é criativo. E a simples novidade se esgota no primeiro instante em que for percebida, ao passo que o criativo sempre se renova e se reestrutura dentro de nós. Cézanne pintou a montanha Sainte Victoire mais de cento e vinte vezes. Ele não estava à procura de novidades. Porém, em sua busca incansável, cada quadro representou um novo começo, um aventurar-se no desconhecido, com novas criações. Quando vemos estas obras, a excitação de suas descobertas perpassa nosso olhar e algo novo se reestrutura dentro de nós. Tampouco se deve confundir originalidade com sensacionalismo. Cada pessoa é um indivíduo único. Portanto, bastaria ser autêntico e verdadeiro consigo mesmo, para ser original. Nada mais do que isso. A originalidade vem de dentro. Já o sensacionalismo... Os valores mercadológicos em nada correspondem a critérios e valores artísticos. Na arte, tanto a motivação como o sucesso são de naturezas totalmente diferentes. Por mais importante que o sucesso de mercado seja para a vida material das pessoas, ele nem sempre significa o verdadeiro sucesso e a realização de um artista. Estes serão aferidos pelo desenvolvimento e crescimento estilístico em suas obras. A profunda crise de valores por que passa nossa sociedade manifesta-se também, como não poderia deixar de ser, na arte. Podemos observá-la nos diversos estilos e, sobretudo, na postura de artistas diante de seu próprio fazer. Ou seja, diante de si mesmos. Até a metade do século XX, embora criando em diferentes estilos figurativos e abstratos, como Cubismo, Dadaísmo, Expressionismo, Surrealismo, Concretismo e Abstracionismo livre, encontramos em todos os artistas uma atitude de empatia, de identificação afetiva com a linguagem da arte. Não só se cuidava em preservar a integridade física da obra, como também se enaltecia o caráter altamente sensual da matéria pictórica, suas formas e cores. É justamente a sensualidade das linguagens artísticas < pintura, música, dança, arquitetura, ou também poesia < que as distingue de linguagens conceituais, como, por exemplo, a filosofia ou a matemática. Encanta-nos ver cores, ouvir sons, perceber movimentos e ritmos. Ainda que física, a sensualidade torna-se uma qualidade espiritual. Vale frisar ainda que a identificação do artista com sua matéria, o fascínio que ela exerce sobre o seu ser sensível e inteligente, estimulando o potencial imaginativo < este diálogo apaixonado entre criação e criador < é que constitui a única, legítima e mais poderosa motivação para alguém querer criar. Porém, se nas décadas iniciais a atitude dos artistas era construtiva em sua busca de novas formas expressivas, ela passa a ser destrutiva na segunda metade deste século. Evidentemente, há razões para isto. De fato, somos testemunhas de um processo paradoxal. Os espetaculares avanços da tecnologia deveriam enriquecer as pessoas, material e também espiritualmente. No sentido humanista, deveriam permitir uma vida mais plena < cada um realizando sua personalidade através da realização de suas potencialidades criativas. Ao invés disto, tais avanços antes parecem empobrecer o ser sensível e espiritual das pessoas. O problema não está na tecnologia em si. Acontece que na visão da sociedade de consumo, o homem não passa de um mini-robô a ser transformado em maxi-robô. Assim será perfeito. Não mais pensará nem perguntará. Apenas consumirá. E nada de sensibilidade, faz favor, que não está no programa. Não é de se admirar, então, que na arte venham surgir tendências que refletem esta mentalidade. Elas procuram destituir as formas de arte de suas qualidades mais nobres e humanizadoras. Em vez de empatia e busca criativa de novas possibilidades formais da matéria, a postura agora é de indiferença, crescente desamor e até agressividade, chegando às raias de ódio pela matéria do seu fazer. Propaga-se que não existem mais critérios na arte. No movimento conhecido como pop art, vemos a linguagem artística banalizada, sua riqueza e complexidade reduzidas ao simplório e rebaixadas ao nível de mero jargão publicitário. Isto é acompanhado pela mais perfeita hipocrisia ao se ³explicar² ao público este empobrecimento como um generoso ato de democratização e ³popularização² da arte. Haja vista a obra de Andy Warhol que, em termos artísticos, nunca passou de uma mediocridade, embora tenha sido um gênio do marketing. Na arte conceitual, as formas só existem no âmbito do imaginário, das idéias e conceitos. Basta pensá-las, e eventualmente ilustrá-las mediante fotografias ou instalações sugestivas. Porém, fica tudo ao nível de associações conceituais. O próprio ato criativo, a ação de elaborar formas visuais que sejam expressivas em si, é abolido. Assim, não há como avaliar qualidades artísticas ou seus significados, além de um certo aspecto decorativo que tenham. Muito menos há a possibilidade de se verificar um desenvolvimento estilístico. Tudo permanece ao nível de (boas?) intenções. A propósito, a linguagem artística nunca é ilustrativa, quer seja de objetos ou conceitos, nem mesmo de conceitos artísticos. Ela é expressiva. Os pintores renascentistas, por exemplo, não conceituaram, antes, o que depois seria o estilo do Renascimento para, então, pintá-lo. Primeiro, vieram as obras. Mais tarde, houve quem analisasse e conceituasse os princípios formais do estilo e seus conteúdos expressivos. Na arte, a conceituação nunca poderá substituir o próprio ato de fazer. Já em outras tendências, exibem-se matérias de modo repulsivo, introduzindo elementos que jamais poderiam ser formalmente elaborados em termos de uma linguagem: excrementos, feridas com sangue e pus (body art), cadáveres em estado de putrefação, e assim por diante. Quanto mais nojentos, tanto mais de vanguarda e ³pra frente² se julgam os autores de tais ³obras². Ainda recentemente, houve o caso de um ³artista² mandar cortar um boi ao meio, colocar cada metade, com tripas e intestinos in natura, dentro de uma caixa de acrílico com formol e enviá-las para a Bienal de Veneza. Lá foram expostas como obras de arte. Não posso imaginar em que sentido isto possa acrescentar algo à sensibilidade de uma pessoa ou enriquecer sua experiência de vida e arte. Só posso imaginar que o autor deva ser uma pessoa bastante doente. E os curadores, despejando toneladas de profundos pensamentos metafísicos a respeito? E o diretor da Bienal, que aceitou tais obras? Em tais manifestações, sem enfoque e sem sentido formal, é possível que se trate de uma problemática de ordem pessoal, de exibicionismo doentio ou drogas. Ou ainda de alguma forma de suicídio. Mas suicidar-se não é um ato artístico. E destruir, sem colocar nada em seu lugar, não tem significado algum na arte, não passa de mero vandalismo. Cabe frisar também, que não há nisto tudo a mais leve intenção de questionamento ou crítica e, muito menos, a possibilidade de se encontrarem novas formais expressivas. Não se trata, como alguns pretendem, de uma arte de contestação. É apenas um sensacionalismo a todo custo e do mais baixo nível, ³pour épater les bourgeois², traduzindo a expressão que se tornou famosa, ³para chocar os burgueses². Acontece, porém, que a burguesia não é mais chocável. Não há nada que ainda possa chocá-la. Esses vanguardistas, ousados desbravadores do futuro, chegaram atrasados. A mídia já se encarregou de liquidar com os últimos escrúpulos estéticos e éticos. Neste rumo, só restaria a destruição física total. De fato, é o que está acontecendo. A fim de chamar a atenção, retalha-se, despedaça-se, incinera-se tudo, destruindo tanto a imagem como seu suporte. Só assim poderá alguém ser considerado moderno, ou pós-moderno, ou contemporâneo ou, melhor ainda, pós-trans-vanguarda. Agora, o outro lado da medalha: quando se proclama que hoje não existem mais critérios artísticos, quando qualquer coisa passa, portanto, quando não se consegue mais distinguir entre arte e não-arte, então também não se consegue saber quem são os bons artistas que existem em todos os países. Raramente se encontram nas galerias do grande circuito internacional. Estas inventaram seu próprio Olimpo e realmente acham que, através de jogadas de marketing, adquiriram poderes supremos para ³criarem artistas² e decretarem o que é arte < leia-se, a ³grife², a última moda da estação. Eu conheço alguns bons artistas. Não foram considerados bastante interessantes para o marketing das galerias. Mas e daí? Isto não os torna menos sérios, menos criativos, menos artistas. Penso que, nos dias de hoje, Cézanne não teria a menor chance. Ele é sério demais.


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Tiffani Gyatso

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